Ela estuda o comportamento das pessoas da maturidade e conhece muito sobre eles. A Kaizen Magazine foi ouvir a Antropóloga Mirian Goldenberg, para falar sobre como envelhecer bem e o resultado está nesta entrevista.

KAIZEN MAGAZINE: Quem chega melhor na maturidade? O homem ou a mulher? 

MIRIAN GOLDENBERG: Fiz uma pesquisa com mil e setecentas pessoas e a maioria delas  acredita que o homem envelhece muito melhor que a mulher. 

As mulheres acreditam que a velhice masculina é mais tranquila porque o homem não é tão cobrado pela aparência física. Ele é valorizado por outros fatores, enquanto a mulher é muito mais cobrada quando envelhece pelas suas rugas, cabelos brancos, celulite, por engordar e pela pele. O corpo jovem, magro e sensual no Brasil é um verdadeiro capital para as mulheres e não é assim para os homens. 

A percepção sobre o envelhecimento é de que o homem é menos cobrado socialmente pela aparência e, por isso, envelhece melhor. Mas as mulheres de 60 anos discordam disso porque elas veem que em termos de saúde, disponibilidade para sair, passear,  viajar e cuidados estéticos, elas  estão muito melhor do que eles. 

No entanto, os homens desta faixa etária ou até mais velhos não concordam com esta afirmação. 

KAIZEN MAGAZINE: Como é o relacionamento nessa fase da vida? 

MIRIAN GOLDENBERG: Percebo 2 movimentos: o primeiro é de que os homens quando envelhecem, se voltam mais para o mundo do lar e do afeto. Eles valorizam muito a vida doméstica com a esposa, filhos e netos.  Por outro lado, as mulheres falam de liberdade e das amigas. Elas querem sair, passear, viajar, encontrar com as amigas e ir ao cinema ou ao teatro. Então, muitas vezes há um descompasso quando eles estão casados, entre o que eles querem e o que elas desejam na maturidade. 

Eu vejo que o relacionamento que funciona é quando há um novo casamento ou namoro nessa fase em que homens e mulheres têm projetos comuns. No meu livro “Por que os homens preferem as mulheres mais velhas”,  eu mostro que muitas mulheres encontram, justamente depois dos 50 ou 60 anos, parceiros que são mais companheiros e que valorizam não apenas a juventude feminina, mas outras características, como a maturidade, o senso  de humor, a segurança e a independência. Portanto, não é como dizem que é só desastre porque as mulheres estão sozinhas nesta fase da vida, até porque elas preferem a liberdade e curtir a vida com as amigas. Elas querem ter um parceiro, mas que esteja no mesmo ritmo e que faça o que elas gostam. Não querem mais cuidar de ninguém e nem da casa. 

KAIZEN MAGAZINE: Como não sentir que a vida está se acabando nesta fase?

MIRIAN GOLDENBERG: Atualmente, estou pesquisando homens e mulheres de mais de 90 anos que estão lúcidos, ativos,  independentes, saudáveis, com projetos de vida e  muita felicidade e energia. Eles não falam de fim de vida, mas sim dos seus projetos, do que querem fazer. Eles têm uma vida muito ativa e independente. Por isso, você pensar que aos 50 ou 60 a vida está acabando é uma realidade que corresponde ao século passado, não a este século. Hoje, eu encontro muitas pessoas de mais de 90 anos que vivem muito bem, são muito felizes e querem viver muito mais. É lógico que existem problemas de saúde e misérias em todas as fases da vida, mas a população que mais cresce com independência, é formada por aqueles que passaram dos 60 anos e estão vivendo muito bem. Temos que refletir como viveremos bem até os 90, 100 ou mais anos porque a tendência é de que a gente viva cada vez mais. É preciso pensar em  ter projetos, independência, saúde, dinheiro suficiente para tocar a vida, amizades e, principalmente, fazer aquilo que a gente quer  e ama com liberdade. 

KAIZEN MAGAZINE: Como encontrar a felicidade?

MIRIAN GOLDENBERG: Estou lançando um livro no mês de maio exatamente sobre felicidade, baseado na pesquisa que eu fiz com estes homens e mulheres de mais idade e, deles extraí que não é preciso envelhecer para ser mais feliz. A gente pode ser feliz desde cedo. É possível encontrar a felicidade focando na realização dos nossos próprios desejos, tendo projetos e amigos. Também é importante saber dizer não, tirar das nossas vidas os vampiros emocionais e fazer uma faxina existencial (eliminar das nossas vidas tudo aquilo que nos faz mal) e rir muito mais, principalmente, de nós mesmos. Esta curva da felicidade tem inspirado muitas mulheres a viver a velhice com mais liberdade. A melhor rima para a felicidade é a liberdade. 

Portanto encontrar a felicidade é ser cada vez mais livre para ser você mesma. 

KAIZEN MAGAZINE: Como se tornar interessante na maturidade? 

MIRIAN GOLDENBERG: As pessoas precisam buscar ser interessantes para os outros e para elas mesmas desde muito cedo. Não será na velhice que vamos descobrir a magia e nos tornar livres, felizes e interessantes. Essas pessoas que estão envelhecendo bem, com mais felicidade, liberdade e saúde, são as que apostaram muito em fazer coisas boas e belas. 

Elas produzem, realizam, são úteis e independentes. Eu me baseio nos projetos e nas realizações de coisas que sejam úteis, não apenas para nós mesmos, mas para o mundo. Não se deixar levar por essa vibração de ódio e violência que parece estar dominando o planeta, mas sim procurar o foco no que podemos fazer em projetos amorosos, positivos e construtivos para nós e para o mundo. 

MIRIAN GOLDENBERG  é Antropóloga e Professora Titular da UFRJ,  aborda os assuntos deste artigo em seu livro “A Bela Velhice” e no TEDx “A invenção de uma Bela Velhice” 

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